Sorria!!!

Essa materia foi publicada na Revista Sorria, edicao 18.

http://www.revistasorria.com.br/site/edicao/forca-jovem.php

Força jovem

Aos 13 anos, João Felipe ouviu que era muito novo para mudar o mundo. Decidiu dedicar a vida a provar o contrário, despertando a capacidade de transformação em jovens de todo o planeta
Texto: Amanda Rahra // Foto: Marcelo Trad

Quando a escola em que João Felipe estudava, em Santos (SP), organizou uma campanha para arrecadar brinquedos para uma casa de apoio a crianças com aids, ele foi o aluno que mais se animou. Mas, no grande dia da entrega, que frustração: “Ficamos só 20 minutos e não podíamos brincar com os internos. Eu me senti numa espécie de zoológico. Depois, a vida seguiu como se nada tivesse acontecido”, diz.

Desde então, ele passou a questionar as estranhezas do mundo. Por que as pessoas fecham o vidro no semáforo? Por que tantos passam fome? Quando pedia explicações, ouvia que era muito novo para entender e, mais ainda, para mudar a realidade.

Dois anos depois, aos 13, ele mandou um e-mail a uma centena de organizações não governamentais, pedindo ajuda para mudar o mundo. Ninguém o levou a sério. Já que os adultos não ajudariam, procurou jovens que faziam trabalhos inspiradores e os convidou a contar suas experiências a sua turma no colégio. O projeto se expandiu pelas escolas da região. E João Felipe descobriu sua vocação: articular pessoas, apostando no poder de transformação dos mais novos. Hoje, aos 24 anos, é consultor da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Unicef. E leva a jovens do mundo inteiro a mensagem que sempre quis ouvir: “Você é, sim, capaz de mudar o mundo”.

Como é seu trabalho?
João – Sou um articulador da juventude, um freelancer do mundo. Meu papel é motivar e conectar as pessoas para que transformem o local onde vivem. Eu chego a uma comunidade, sento-me com os jovens e juntos identificamos o sonho deles. Conto histórias que os inspirem e pensamos em parceiros que possam ajudar. Depois, as pessoas seguem por si. Elas próprias se responsabilizam por melhorar sua qualidade de vida.

Conte um exemplo de sonho que você ajudou a realizar…
João – A história da Djamila é uma boa. Ela é de uma comunidade do Níger, na África, onde ser mulher já é um problema. Aos 21 anos, ela entrou em contato com a Peace Child International, a organização em que eu trabalhava até 2009, para comprar uma máquina de costura. Achei consumista, mas fui surpreendido. Mobilizamos estudantes da Inglaterra para que eles arrecadassem fundos, e ela conseguiu o equipamento. Então, passou a  ensinar outras mulheres a costurar, e elas montaram uma cooperativa, que, hoje, dois anos depois, emprega 46 pessoas. Além disso, o local virou um centro em que as mulheres discutem questões como hábitos de higiene, violência, relacionamentos e sexualidade.

Como é sua trajetória profissional?
João – Terminei o colegial e fiquei dois anos trabalhando em projetos sociais. Então, entrei na faculdade de relações internacionais, mas o curso não tinha muito a ver comigo, era muito teórico. Logo no primeiro semestre, aos 19 anos, larguei tudo no Brasil e fui trabalhar na organização Peace Child International, na Inglaterra, que atua para dar poder aos jovens a fim de que eles liderem projetos em sua comunidade. Em oito anos, participei de iniciativas em mais de 40 países. Hoje, trabalho para a ONU, ajudando a melhorar suas estratégias de mobilização de jovens. E, desde 2010, também sou consultor do Unicef. No momento, moro na Zâmbia, na África, implantando um programa que ajuda jovens a combater localmente os efeitos das mudanças climáticas.

Como você vê a juventude de hoje?
João – Muita gente diz que os jovens de hoje não querem nada com nada. Não é verdade. Estamos fazendo uma revolução silenciosa, usando as tecnologias disponíveis, como celular, computador e redes sociais. Elas permitem que a gente se conecte, saiba o que está acontecendo no âmbito global e assim mude nossa realidade local a partir de milhares de referências do mundo.

Como isso funciona na prática?
João – Há pouco tempo, eu passei 15 dias em uma ilha na Grécia para fazer um projeto de reciclagem. Postei no Facebook: “Galera, estou em tal cidade, com tal problema. Alguém tem ideia de como solucionar?”. Em meia hora, gente do mundo inteiro começou a mandar sugestões e contatos de pessoas que poderiam ajudar localmente. Em uma semana, nós conseguimos montar um projeto, envolvendo a comunidade local e usando conhecimento de pessoas de fora que nem me conheciam, mas que se interessaram pelo assunto.

Qual é o desejo da juventude hoje?
João – Uma coisa que une esta geração é a vontade de construir um mundo melhor. Os jovens querem mostrar que não são um grupo à parte. Eles querem ser parceiros dos processos. Até porque metade da população mundial tem menos de 25 anos. Por isso, é importante que todos trabalhem juntos.

E os adultos estão preparados para trabalhar com os jovens?
João – Muitas vezes, o jovem não tem ideia de como colaborar, e os adultos também não sabem como ajudar. Então, as tentativas acabam sendo traumáticas. Os jovens precisam conquistar confiança em si, e os mais velhos devem aprender a botar fé nessa geração. Até porque, hoje em dia, há muitos profissionais super-respeitados que são bem jovens.

Seu trabalho é ajudar a realizar sonhos. Qual é a importância de sonhar?
João – A gente vive num tempo tão louco, em que temos de trabalhar, estudar, fazer uma série de coisas, que acabamos perdendo a habilidade de sonhar e de entender que podemos fazer do sonho nossa própria vida. Eu acredito que seja por meio do sonho que percebemos que somos indivíduos únicos, com as próprias necessidades pessoais e coletivas – e é isso que move o mundo para a frente.

 

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